segunda-feira, 15 de março de 2010

Ilha do Medo



Mais uma vez Martin Scorsese foi além das minhas expectativas e medos. Tendo lido “Paciente 67”, de Dennis Lehane, livro no qual é baseado o filme “Ilha do Medo” (aliás, que traduçãozinha infeliz, como sempre), fiquei realmente curiosa e temerosa acerca do que Scorsese nos traria dessa vez. Como colocaria todo aquele mistério na tela sem perder o ritmo ou entregar as possibilidades antes do final.

Foi delicioso escutar um “ahn?!” geral ao final do filme. Mostra que Scorsese conseguiu atingir o propósito da história. Não é um filme para quem não gosta de pensar ou quer que a narrativa seja toda entregue de bandeja. É uma história que começa quando termina, por assim dizer. Começa a reprisar na sua cabeça, para que o leitor/espectador monte as peças e tire conclusões: loucura de Andrew Laeddis ou conspiração contra Teddy Daniels?

Falando neles, é delicioso ver Leonardo DiCaprio se desconstruindo e deixando apenas o próprio personagem guiar o filme (coisa que ele fez e muito bem em “O Aviador”, que quase lhe rendeu um Oscar). Por outro lado, percebi um Mark Ruffalo mais apagado do que deveria. Jakie Earle Haley sempre me causa arrepios com sua força e não foi surpresa ao manter sua qualidade.

Claro que, como em toda adaptação, houve pequenos pecados, aquelas peças deixadas de lado. Mas nada que atrapalhasse o andamento ou o entendimento, se é que dá para se entender, do filme.

Enfim, Martin Scorsese mostrou que pode fazer de tudo. Em resumo, mostrou por que é o tal Martin Scorsese.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Mulheres Imperfeitas ou Homens Exigentes?

O que os homens procuram afinal? O que eles querem? Como seria uma mulher ser perfeita à visão deles?

Em "Mulheres Perfeitas" a solução encontrada foi criar uma cidadezinha no subúrbio e utilizar da tecnologia para transformar mulheres normais (sim, normais, que trabalham, tem problemas e defeitos mas simplesmente procuram dar o melhor de si, ainda que tenham pouco tempo para a diversão) em o que eu chamo de absolutas aberrações: inegavelmente lindas, constantemente sorridentes e sem vontade própria para nada. Mulheres sem problemas, sem preocupações - na verdade, a maior dessas preocupações é levar o controle remoto pelo qual elas são controladas para o marido.

Mas até que ponto é saudável esse nível de exigência masculina? Por quê não aceitar uma mulher de verdade? Afinal, são os defeitos e qualidades de cada um que diferem um ser humano do outro.

O filme nada mais é do que um retrato exagerado da vida real. Homens cobram que suas mulheres sejam perfeitas o tempo todo. Que estejam sempre prontas, que sejam sempre divertidas. Que sorriam, que estejam lindas. Que sejam carinhosas, racionais e calmas 100% do tempo. O que gera um paradoxo ao próprio olhar machista: não são as mulheres o sexo frágil? Como lidar então com todos os problemas humanos - e de mulheres independentes - sem fases de tristeza, exaltação, estresse, ansiedade?

Os homens pensam e cobram. As mulheres sentem.... e sentem. Seria necessário eles olharem mais para si mesmos e enxergar os próprios defeitos. Principalmente, a exigência.

Talvez o mundo precise de mais versões de Walter Kresby, que percebe, mesmo que no último minuto, que não ama um robô, mas sim uma mulher inteligente, independente e sensacional.

A verdade é que é preciso ser muito forte para ser perfeita. E que essa força Herculiana sequer existe em um ser humano.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Os Delírios Cinematográficos de PJ Hogan



Como alguém que gosta de comédias (eu disse comédias, não coisas non-sense demais) e ainda sendo publicitária, resolvi ver "Os Delírios de Consumo de Becky Bloom". Eu precisava ver e entender todo esse mecanismo que atrai às pessoas às lojas através de vitrines, como se as mesmas estivessem falando e chamando por essas pessoas.

E por uma das raras vezes, apesar de não ter odiado o filme, eu perdi totalmente a vontade de ler livro no qual ele é inspirado.
Porque é isso: a única coisa interessante é ver como a vitrine chama por Becky, como ela se enfeitiça por compras e como funciona a cabeça de um "shopaholic", que vê o mundo mais bonito quando faz compras.

No mais é só mais uma comédia romântica boba e sem sal, com uma protagonista que nem é tão carismática, uma amiga esquisita. Salva-se também o Luke Brandon no papel de Hugh Darcy, que é sempre charmoso, mas que definitivamente não funciona com a Isla Fisher.
Só uma cinéfila publicitária que tem fé em tudo mesmo para encarar essa.

quarta-feira, 18 de março de 2009

How can I resist you?


Desde o final dos anos 1970, Meryl Streep não para de surpreender. Depois de cerca de 30 anos de carreira, a “atriz das atrizes” se arrisca em algo absolutamente diferente de seus últimos trabalhos, no musical Mamma Mia!. A energia de Streep talvez seja o elemento que mais impressiona e contagia em todo o filme. Defendendo-se com dignidade nos vocais e nas coreografias, ela faz com que o filme não seja apenas um enredo bonitinho em um paraíso grego, e sim uma obra verdadeiramente encantadora.


Obviamente, é impossível deixar de comentar a trilha sonora, praticamente todas as músicas sendo muito bem utilizadas. Para quem conhece um mínimo do repertório do ABBA, é possível cantarolar junto e entrar no clima do filme.


Com todas as cores, canções e danças, de encher os olhos, o tema principal do filme, a busca de Sophie (Amanda Seyfied) pelo seu pai às vésperas de seu casamento, acaba ficando em segundo plano. Um filme divertido, cheio de energia, de um gênero que há muito tempo sofre um certo “preconceito” por parte das gerações mais novas. Mamma Mia! veio tentar conquistá-los.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Além do deprimente e da depressão


Dizer que Christina Ricci tinha uma mina de ouro nas mãos quando aceitou o papel da auto-destrutiva Elizabeth Wurtzel é, provavelmente um pouco de exagero; ou talvez não, já que, em geral, personagens com esse perfil tendem a abrir um enorme leque de emoções a serem exploradas. Porém, o maior pecado de “Geração Prozac” não chega a ser a rasa e artificial atuação de Ricci – que, sejamos justos, tem bons momentos – mas a própria narrativa, que deixa a impressão de que a história está simplesmente sendo jogada na tela, como se os 88 minutos não fossem suficientes e existisse uma absurda necessidade de correr com a história, principalmente nos primeiros 20 minutos.

A história pode parecer bastante clichê. Adaptado de um best-seller homônimo escrito pela própria Wurtzel, o filme conta aquela velha história que sempre nos parece familiar: garota insegura e sem base familiar alguma vai para a faculdade onde se envolve com drogas e álcool, afasta as pessoas que se importam com ela, na maioria das vezes por estar sempre na defensiva, entra em depressão etc., etc., etc. (não necessariamente nessa ordem). O grande trunfo está, provavelmente, em algumas falas bem escritas. Apenas para citar a minha preferida, que saiu da boca de Ruby, personagem de Michelle Williams: “Lizzy, I'm not crying because you're mean. I just can't imagine how incredibly painful it must be to be you.”.

Lizzy é egoísta, egocêntrica e se acha a dona da verdade absoluta do mundo (e é justamente daí que surge a frase citada acima). Ao longo de praticamente toda a história, ela acredita piamente que é a pessoa mais sofredora do universo; a que tem mais problemas, o mais fraco e derrotado do seres humanos. É aí que entra a “pílula mágica”, a preferida de 9 em cada 10 americanos. A droga prescrita pela psiquiatra deveria fazê-la ter tempo para respirar e ver as situações com outros olhos. Mas só o remédio não basta. Apenas ao conhecer a irmã de Rafe, em uma ocasião forçada por Lizzie, ela começa a entender melhor que ter problemas não é exclusividade dela. É um ponto rápido do filme, mas faz o espectador ter esperanças de que, agora, Lizzie vá tomar atitudes diferentes. Ao contrário do esperado, ela se enterra ainda mais.

Para ajudar ainda mais na pífia e frágil atuação de Ricci, algumas escolhas de planos podem ser consideradas no mínimo lamentáveis ou estranhas: Erling Thurmann-Andersen, o diretor de fotografia, no melhor estilo “mamãe-quero-ser-cool” tenta adicionar um estilo diferente, mas tudo o que consegue é tirar ainda mais do alcance do público a emoção já agonizante que a intérprete de Lizzie consegue passar. Juntando tudo, o filme não é tão ruim quanto se pensa, nem tão bom quanto poderia ser. É apenas confuso, às vezes fazendo escolhas certas, às vezes mergulhando ainda mais fundo no poço. Do tipo que é melhor já assistir com uma caixinha de Prozac do lado.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Dançando no Escuro


*contém spoilers*

Até estar completa a 2ª hora do filme, achei que angustiante fosse o adjetivo ideal para descrevê-lo. Mas é justamente aí que, o que eu achava que não podia ficar ainda mais aflitivo, tira totalmente o fôlego. Dói ver cada expressão da personagem de Björk – que no começo achei levemente perdida, mas depois se torna de fato a melhor coisa do filme –, cada decisão tomada na história.

Selma Jezková é apenas uma mãe fazendo o que, imagino eu, qualquer outra faria: buscar o melhor para o seu filho e, se preciso, fazer das tripas coração para que o objetivo seja alcançado. Seu amor por musicais encanta desde o começo, com excelentes doses de “A Noviça Rebelde”. Ainda mais quando acompanhamos a evolução de sua doença hereditária. Por outro lado, Bill Huston não me enganou por um só minuto. De personalidade fraca e ao mesmo tempo mente engenhosa, Bill é covarde o suficiente para arquitetar a própria morte pelas mãos da pobre imigrante, Selma.

Não posso deixar de comentar também o restante do elenco, belíssimo, com Peter Stormare e, principalmente a no mínimo adorável participação de Catherine Deneuve.

Lars Von Trier, como de costume, usa e abusa de sua marca registrada: câmera na mão e ares de documentário. Apenas utiliza câmera fixa quando é preciso fazer com que o espectador sinta-se de fato na mente de Selma, onde tudo é um grande musical Hollywoodiano. As cores de cenário e iluminação também acompanham este mesmo raciocínio. Isso reforça ainda mais o encantamento do filme.

É um daqueles filmes que, quando terminam, deixam o espectador anestesiado com o que viu, dançando na escuridão da própria mente.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Lembranças...


Nunca esqueci o dia em que fui assistir “O Segredo de Brokeback Mountain” no cinema. Já havia assistido antes, a ansiedade não me permitiu esperar a estréia na cidade e fui obrigada a utilizar meios escusos (o bom e velho download, excelente para essas emergências). Queria que as lembranças daquele 9 de março de 2006 fossem boas. Infelizmente, isso não aconteceu, pelo contrário. Senti vergonha das pessoas dessa cidade como poucas vezes na vida.

Eu sabia que não ia ser tarefa fácil ver esse filme no nordeste. Agüentar as gracinhas, risadinhas isoladas, piadinhas e uma leve baderna. Eu não esperava que as pessoas aplaudissem de pé ou algo assim, claro. Sabia muito bem que estava indo ver um filme com personagens homossexuais em uma região predominantemente machista e intolerante. Mas, ao contrário do que eu ainda esperava, a baderna não foi leve, as risadinhas não foram isoladas. Ouvia-se gritaria e gargalhadas, principalmente naquelas que, pelo menos para mim, são as cenas mais tocantes do filme (o reencontro dos dois, anos depois, quando Alma os vê pela janela; a parte que eles vão para longe e Jack diz como queria que eles pudessem viver juntos, num pequeno rancho deles).

Sinceramente, eu nunca enxerguei “O Segredo de Brokeback Mountain” como um filme gay, ou um filme sobre gays. Para mim, é apenas uma linda história de amor proibido entre duas pessoas, como tantas outras. “Romeu e Julieta” é uma história de amor proibido. “Titanic”. “Edward Mãos-de-Tesoura”. “Casablanca”. E mesmo que fosse um filme gay... Continuam sendo duas pessoas que se amam e eu não vejo nada especialmente cômico nisso. Então pra mim, foi difícil entender de que raios aquelas pessoas tanto riam.

É incrível como a mente das pessoas é pequena. Elas não se permitem sequer aceitar, não se permitem ver um FILME com o mínimo de respeito aos outros espectadores. Pior ainda foi quando Heath Ledger faleceu, todos aqueles religiosos dizendo que era bem feito que tenha morrido, que foi castigo. Não dá pra entender isso também. Pessoas que se dizem religiosas carregando tanta intolerância.

Deixo aqui então os meus aplausos, merecidíssimos, a Ang Lee, Anne Hathaway, Michellhe Williams e, principalmente a Jake Gyllenhaal e ao saudoso Heath Ledger, que fizeram um filme tão carregado de sensibilidade, verdade e sentimento. Amor puro. Um amor que jamais irá envelhecer.

“Jack, I swear...”
“Heath, I swear...”